Lumi Lapin

Referências

30 JUL — 26 AGO 2021

Referências por Lumi Lapin

A ternura de um olhar

O olhar de Lumi Lapin é a ternura em viagem pela mais pura descoberta. Alexandre O’Neill falou várias vezes desses «olhos altamente perigosos» com que abriu «um adeus português» para se desculpar sempre neste dois versos: «a meu favor/ tenho o verde secreto dos teus olhos».

Parti da fotógrafa para as fotografias desta exposição porque Lumi Lapin é o mais recente caso prático descrito na letra daquela cantiga popular que diz assim: «Ai que linda troca de olhos/ fizeram-me agora ali/ trocaram-se uns olhos meus/ por outros que eu bem vi».

Ver a Lumi Lapin a fotografar é descobrir toda a sua ternura no gesto de enquadrar quem ela fotografa. Porque o seu olhar em permanente vigilância parece proteger a vida retratada nos seus instantes decisivos. Sobretudo quando retrata crianças em perigo. Crianças habituadas a viver com o perigo mas também crianças espantadas com o perigo que é olhar assim para uma máquina fotográfica.

Há espingardas, pistolas e metralhadoras nas fotografias de soldados e crianças que Lumi Lapin fotografou nas favelas do Rio de Janeiro. Mas também há camisolas do Flamengo encostadas à parede, miúdos sem bola e bicicletas num cenário onde cavalos atravessam a rua e homens permanecem na berma.

Lumi Lapin fotografa tudo o que mexe, fixa o momento e dá-lhe o movimento permanente que só a foto permite.

Estas fotos merecem um olhar rápido e outro demorado. O primeiro para sentir o ambiente e a cor. Porque a cor, aqui, não é inocente. A cor das diversas cores é quente e quase clássica, como se fossem antigas fotografias esmaltadas da velha américa latina. O segundo olhar deve ser mais demorado e lento. Atento aos pequenos pormenores. Porque é também nestes minúsculos sinais que se descobre o olhar ternurento da fotógrafa.

Mas há ainda uma nota final que vale a pena sublinhar. A primeira vez que desembarquei no Funchal achei que estava num Rio de Janeiro em miniatura. A beleza do mar e da montanha marcam o perfil de ambas as cidades. Há muitas diferenças nos rostos e no resto da vida. Mas espero ver em breve uma exposição de Lumi Lapin no Rio. Com fotos feitas no Funchal, naturalmente.

Carlos Magno

Lumi Lapin

Lumi Lapin

Artista luso-brasileira nascida no Porto, Lumi é licenciada em Som & Imagem pela Universidade Católica Portuguesa. Abriu o canal de televisão NTV* (atual RTP3) e fez parte da equipa que iniciou a Casa da Música.

Muda-se para o Brasil em 2011 onde, no Rio de Janeiro participou das produções das óperas “Aída”e “Carmén” no Theatro Municipal, trabalhou no extinto “Projeto Damas” para a capacitação de transexuais para o mercado formal de trabalho e assistiu a direção do Festival MIMO. Produziu o artista Daniel Steegmann Mangrané na obra “Phantom (Kingdom of all the animals and all the beasts is my name)”, onde captaram a 3D parte da Floresta da Tijuca e do Parque Lage.

Foi técnica sonora para o documentário “Zona Norte” de Monika Treaut, filmado em locais como a Favela da Maré, Duque de Caxias, Vila Autódromo, e indicado ao Berlinale 2016, onde registrou as fotografias desta exposição.

Em 2016 muda-se para São Paulo e assume a produção executiva do “V Festival de Música Barroca de Alcântara”, em São Luís do Maranhão, que levou a apresentação de concertos a Igrejas, bem como às penitenciárias do Rosário e de Pedrinhas e ao Hospital do Câncer Aldenora Bello.

Trabalhou na produção da Exposição “Dalí, a Divina Comédia”, em São José do Rio Preto e São José dos Campos e de “Kandinsky - Tudo começa num ponto”, exibido pelo Centro Cultural Banco do Brasil.

Em 2017, é convidada para a execução de um livro de artista para a instalação “Library of Love”, da artista plástica Sandra Cinto, que esteve em exposição no Contemporary Arts Center em Cincinatti. A convite do projeto “Poema Bar”, fez a sua primeira exposição individual, a instalação “Semente”.

Foi responsável pelas fotografias de divulgação das peças de teatro “Uma Pilha de Pratos na Cozinha” de Mário Bortolloto e de “Palhaços” de Timochenco Wehbi, que contou com a participação de Dedé Santana.

Apresentou-se no “Festival Laços” em Belém do Pará, com o espetáculo “Amor em Pessoa” ao lado de Alexandre Borges e desenvolveu o Projeto “Flux”, um espetáculo de música e poesia, que devido às atuais condições mundiais, ainda não teve a oportunidade de ser estreado.

Em 2020, muda-se para a Ilha da Madeira.

Atualmente Lumi dedica-se à busca pela Arte e pelo Ser à volta do mundo, explorando diferentes plataformas como, terapia, contadora de histórias, fotografia, vídeo, instalações, canto, poesia e pintura.