A ternura de um olhar
O olhar de Lumi Lapin é a ternura em viagem pela mais pura descoberta. Alexandre O’Neill falou várias vezes desses «olhos altamente perigosos» com que abriu «um adeus português» para se desculpar sempre neste dois versos: «a meu favor/ tenho o verde secreto dos teus olhos».
Parti da fotógrafa para as fotografias desta exposição porque Lumi Lapin é o mais recente caso prático descrito na letra daquela cantiga popular que diz assim: «Ai que linda troca de olhos/ fizeram-me agora ali/ trocaram-se uns olhos meus/ por outros que eu bem vi».
Ver a Lumi Lapin a fotografar é descobrir toda a sua ternura no gesto de enquadrar quem ela fotografa. Porque o seu olhar em permanente vigilância parece proteger a vida retratada nos seus instantes decisivos. Sobretudo quando retrata crianças em perigo. Crianças habituadas a viver com o perigo mas também crianças espantadas com o perigo que é olhar assim para uma máquina fotográfica.
Há espingardas, pistolas e metralhadoras nas fotografias de soldados e crianças que Lumi Lapin fotografou nas favelas do Rio de Janeiro. Mas também há camisolas do Flamengo encostadas à parede, miúdos sem bola e bicicletas num cenário onde cavalos atravessam a rua e homens permanecem na berma.
Lumi Lapin fotografa tudo o que mexe, fixa o momento e dá-lhe o movimento permanente que só a foto permite.
Estas fotos merecem um olhar rápido e outro demorado. O primeiro para sentir o ambiente e a cor. Porque a cor, aqui, não é inocente. A cor das diversas cores é quente e quase clássica, como se fossem antigas fotografias esmaltadas da velha américa latina. O segundo olhar deve ser mais demorado e lento. Atento aos pequenos pormenores. Porque é também nestes minúsculos sinais que se descobre o olhar ternurento da fotógrafa.
Mas há ainda uma nota final que vale a pena sublinhar. A primeira vez que desembarquei no Funchal achei que estava num Rio de Janeiro em miniatura. A beleza do mar e da montanha marcam o perfil de ambas as cidades. Há muitas diferenças nos rostos e no resto da vida. Mas espero ver em breve uma exposição de Lumi Lapin no Rio. Com fotos feitas no Funchal, naturalmente.
Carlos Magno


